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Consistência terminológica e memórias de tradução em relações comerciais duradouras

Estante de biblioteca antiga com fileiras de livros encadernados em espanhol, organizados por número de catálogo, imagem que remete à precisão terminológica exigida em documentação técnica

Um engenheiro de qualidade de uma fábrica espanhola no setor de componentes automóveis passou uma tarde inteira a tentar perceber se dois relatórios de ensaio do mesmo fornecedor português descreviam o mesmo teste elétrico ou dois testes diferentes. O primeiro relatório, de há três anos, falava em “prueba de resistencia de aislamiento”. O segundo, entregue há poucas semanas, dizia “ensayo de rigidez dieléctrica”. No original em português, os dois termos, “ensaio de resistência de isolamento” e “ensaio de rigidez dielétrica”, designam ensaios diferentes: um mede a resistência em ohms, o outro a tensão que o isolamento aguenta sem romper, em quilovolts. Nada na versão espanhola indicava se se tratava do mesmo ensaio descrito de duas formas distintas ou de dois ensaios realmente distintos. O fornecedor português exportava para aquela fábrica há mais de sete anos, mas tinha mudado de tradutor entre os dois relatórios, e um glossário que fixasse os dois termos nunca tinha chegado a existir.

Este tipo de situação raramente nasce num documento isolado. Nasce quando uma relação comercial se prolonga, quando os manuais, relatórios e especificações se acumulam ao longo de vários anos e tradutores diferentes vão, sem se aperceberem, escolhendo palavras diferentes para a mesma realidade técnica. Em 2025, Portugal tornou-se o parceiro com quem Espanha regista o maior excedente comercial de todos os países, 17.380,1 milhões de euros, à frente de França e do Reino Unido. O automóvel é a maior categoria de comércio entre os dois países, nos dois sentidos, e é exatamente neste tipo de relação, longa, técnica e bidirecional, que a ausência de um glossário e de uma memória de tradução mais se faz sentir.

Um documento pontual não tem as mesmas regras que uma relação de anos

Traduzir uma ficha técnica isolada é, sobretudo, um exercício de precisão pontual: perceber o contexto daquele documento e escolher os termos certos para ele. Traduzir a documentação de uma relação comercial que já vai no quinto ou sexto ano é outra coisa. Já existem escolhas de terminologia tomadas antes, muitas vezes por outro tradutor, nalguns casos há vários anos, e a questão deixa de ser “qual é a palavra certa” para passar a ser “qual é a palavra que já usámos da última vez, e que o cliente do outro lado já reconhece”. Ignorar essa história cria precisamente o tipo de dúvida que travou o engenheiro de qualidade do exemplo anterior: não uma tradução errada, mas duas traduções corretas que, lidas em conjunto, parecem contradizer-se.

Como um glossário se constrói, não se compra

Um glossário útil não nasce pronto no primeiro projeto. Começa com os termos que ficam fixados no primeiro documento traduzido, nomes de peças, designações de ensaios, referências normativas, e cresce a cada novo projeto: sempre que surge um termo novo, verifica-se se entra em conflito com o que já está fixado e, em caso de dúvida, confirma-se junto de quem acompanha o projeto do lado do cliente. Ao fim de alguns anos, esse glossário passa a conter centenas de termos, cada um já testado em contextos reais, e deixa de depender da memória de um único tradutor, o que importa sobretudo quando esse tradutor muda ou está indisponível numa entrega urgente.

A memória de tradução compensa mais quanto mais longa for a relação

A memória de tradução guarda todas as frases já traduzidas e reconhece-as quando voltam a aparecer, iguais ou semelhantes, em documentos futuros. Num projeto único, o efeito é limitado. Mas quando um manual é revisto e a alteração afeta apenas alguns parágrafos, a memória permite tratar só o que mudou, mantendo o resto exatamente como foi validado da vez anterior, o que acelera a revisão e reduz o risco de introduzir, sem querer, uma nova forma de dizer algo que já estava fixado. Ao terceiro ou quarto ano de uma relação contínua, uma parte significativa de cada novo documento já corresponde a texto que a memória reconhece, o que se traduz em prazos mais curtos sem abdicar de rigor.

As duas direções da mesma relação comercial

Esta necessidade de consistência não corre só num sentido. 130 empresas portuguesas, com 155 filiais, operam atualmente na Catalunha, representando 81 milhões de euros de investimento português ao longo de 5 anos; no sentido inverso, 594 empresas catalãs, com 783 filiais, operam em Portugal, um investimento catalão de 189,7 milhões de euros no mesmo período. Estes números não descrevem encomendas pontuais: descrevem filiais instaladas, com produção continuada e documentação técnica que atravessa a fronteira em ambos os sentidos, mês após mês. Uma empresa portuguesa que fornece a Espanha precisa do mesmo rigor terminológico ao traduzir para espanhol que uma empresa espanhola com fábrica em Portugal precisa ao traduzir para português, e o glossário e a memória de tradução funcionam da mesma forma nos dois sentidos.

O que garante a qualidade não é só o glossário

Um glossário bem construído reduz o risco de inconsistência, mas não substitui uma segunda leitura. Por isso, todos os documentos técnicos passam por um segundo linguista independente, distinto de quem fez a primeira versão, que revê o texto na íntegra antes da entrega, seguindo os mesmos princípios exigidos pela norma ISO 17100. Esta revisão é o momento em que uma eventual inconsistência com o glossário, ou entre dois documentos anteriores, ainda pode ser apanhada antes de chegar ao cliente.

Antes de começar um projeto pensado para durar

Quando se sabe, desde o início, que a relação com um fornecedor ou cliente vai gerar documentação de forma continuada, vale a pena dizê-lo logo no primeiro pedido de orçamento. Com essa informação, e com qualquer glossário ou tradução anterior já existente, é possível montar o projeto como uma relação a construir ao longo do tempo, e não como um documento isolado que se esquece assim que é entregue.

Se a sua empresa mantém uma relação comercial continuada com fornecedores ou clientes em Portugal ou em Espanha, e a documentação técnica circula com regularidade entre os dois países, contacte-nos em [email protected] ou por WhatsApp em +34 647 289 094. Enviamos um orçamento fechado no prazo de um dia útil, e para relações contínuas propomos desde o início uma estrutura de glossário e memória de tradução pensada para durar tanto quanto o próprio negócio.

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